Aviação brasileira registra novos recordes, brasileiros ampliam o consumo de passeios e experiências, inteligência artificial ganha espaço no planejamento de viagens e cruzeiros movimentam bilhões na economia. Veja os principais acontecimentos do turismo entre 18 e 25 de setembro de 2026.
A última semana de setembro trouxe uma sequência de indicadores positivos para o turismo brasileiro, acompanhados por mudanças importantes no comportamento dos viajantes e novas movimentações comerciais no setor.
Os números da aviação continuam avançando, enquanto pesquisas mostram consumidores cada vez mais interessados no que podem fazer durante uma viagem — e não apenas no destino em si. Ao mesmo tempo, ferramentas de inteligência artificial já fazem parte da rotina de planejamento de uma parcela significativa dos turistas latino-americanos.
O mercado de cruzeiros também apresentou números expressivos, a ABAV Expo se aproxima com forte presença de tecnologia e inovação, e destinos nacionais e internacionais continuam buscando formas de ampliar sua participação no mercado brasileiro.
Aviação brasileira chega a 88,6 milhões de passageiros em 2026
A aviação brasileira manteve o ritmo de crescimento ao longo de 2026.
Entre janeiro e agosto, 88,6 milhões de passageiros viajaram em voos domésticos e internacionais no Brasil, número 4,7% superior ao registrado no mesmo período de 2025.
Somente em agosto foram transportados 11,5 milhões de passageiros, estabelecendo um novo recorde para o mês.
O mercado doméstico acumulou aproximadamente 68 milhões de viajantes, crescimento de 3,8%. Já os voos internacionais avançaram ainda mais, alcançando 20,6 milhões de passageiros e uma expansão de 7,6%.
A oferta também cresceu. Em agosto, a capacidade disponibilizada pelas companhias aumentou 6,8% no mercado doméstico e 4,3% nas operações internacionais, segundo dados da Agência Nacional de Aviação Civil publicados pelo Ministério de Portos e Aeroportos.
O crescimento simultâneo da demanda e da oferta torna o cenário especialmente interessante. Não se trata apenas de aeronaves mais cheias: há também expansão de capacidade para acompanhar um mercado que continua movimentado.
O avanço mais acelerado das viagens internacionais merece atenção. Depois de alguns anos em que a recuperação do turismo esteve bastante concentrada no mercado doméstico, o crescimento de 7,6% indica uma retomada mais forte das viagens para o exterior e das conexões internacionais envolvendo o Brasil.
O comportamento futuro desse mercado continuará diretamente relacionado a fatores como câmbio, preço das passagens, abertura de novas rotas e capacidade das companhias de ampliar suas operações.
Instabilidade na Azul provoca mais de 80 cancelamentos
A mesma semana que trouxe bons números para a aviação também mostrou como a expansão do transporte aéreo torna grandes interrupções operacionais cada vez mais relevantes.
Na terça-feira, 22 de setembro, uma instabilidade relacionada à recepção de sinais de GPS afetou aeronaves Embraer E195-E2 utilizadas pela Azul.
O problema ocorreu praticamente no mesmo período de uma interrupção no fornecimento de energia do Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas, principal centro de conexões da companhia.
A combinação das duas ocorrências provocou mais de 80 cancelamentos e afetou aproximadamente 8 mil passageiros, segundo informações publicadas pelo Brasilturis.
Parte das operações com os E195-E2 chegou a ser temporariamente interrompida e foi retomada posteriormente. A causa da instabilidade relacionada ao GPS continuava sendo investigada após a normalização das operações.
O impacto ganha proporções maiores justamente por Viracopos funcionar como um dos principais hubs da Azul. Em sistemas de transporte baseados em conexões, problemas em aeroportos centrais podem se espalhar rapidamente por diferentes rotas.
Com uma malha aérea transportando volumes cada vez maiores de passageiros, episódios desse tipo também passam a afetar um número maior de pessoas em um curto espaço de tempo.
Brasileiro se destaca no consumo de passeios e experiências durante as viagens
Uma das pesquisas mais interessantes divulgadas nesta semana trata justamente do que o turista faz depois de chegar ao destino.
Um levantamento realizado pela Arival e pela Phocuswright, patrocinado pela Civitatis, analisou o comportamento de 1.200 viajantes de Brasil, Argentina e México.
Entre os três países pesquisados, os brasileiros apresentaram o maior número médio de experiências reservadas por viagem.
Na viagem mais recente, cada participante brasileiro havia reservado, em média, 4,4 atrações, 4,4 atividades e 3,1 passeios guiados.
Quase 30% também afirmaram realizar quatro ou mais viagens de lazer por ano. As viagens tiveram duração média de oito noites e gasto médio informado de US$ 2.699 por pessoa, de acordo com dados publicados pelo Mercado & Eventos.
Os números não representam necessariamente todo o universo de viajantes brasileiros, já que refletem o perfil da amostra estudada, mas ajudam a identificar uma mudança relevante na composição do consumo turístico.
Durante muito tempo, transporte e hospedagem dominaram boa parte da discussão sobre gastos em viagens. O estudo mostra que atrações, atividades e experiências ocupam um espaço cada vez mais significativo.
Isso fica ainda mais claro quando a pesquisa aponta que seis em cada dez viajantes latino-americanos entrevistados consideram as experiências muito ou extremamente importantes na escolha do próprio destino.
Entre todos os participantes, 96% visitaram pelo menos uma atração durante a viagem, 87% participaram de algum passeio guiado e 77% realizaram algum tipo de atividade turística.
É uma mudança importante na forma como o destino é percebido. A escolha já não depende apenas de onde viajar, mas cada vez mais de o que existe para fazer quando se chega lá.
Parques, museus, gastronomia, passeios históricos, atividades de aventura, experiências culturais e visitas guiadas deixam de ser apenas complementos e passam, em determinados casos, a atuar como a própria motivação da viagem.
Inteligência artificial já participa do planejamento de grande parte dos viajantes pesquisados
O mesmo estudo trouxe outro dado que ajuda a entender como o comportamento do turista está mudando.
Cerca de 70% dos viajantes latino-americanos entrevistados afirmaram já ter utilizado alguma ferramenta de inteligência artificial para planejar viagens.
Entre participantes de 18 a 34 anos, a proporção chegou a 80%.
O ChatGPT foi mencionado por 43% dos entrevistados, enquanto o Google Gemini apareceu com 35%.
O número muda bastante, entretanto, quando a pesquisa deixa o planejamento e passa para a transação. Apenas 12% disseram ter utilizado inteligência artificial para efetivamente reservar uma experiência.
Essa diferença mostra que a adoção da tecnologia acontece em velocidades diferentes ao longo da jornada de compra.
Ferramentas generativas rapidamente encontraram espaço para responder perguntas, sugerir destinos, organizar roteiros e comparar alternativas. A utilização para concluir reservas e pagamentos ainda é bem menor.
Outras fontes também continuam exercendo forte influência. Amigos e familiares foram mencionados por 77% dos entrevistados, avaliações de outros viajantes por 67%, agentes de viagens por 58% e sugestões produzidas por inteligência artificial por 42%.
Entre os brasileiros pesquisados, 93% consideraram as avaliações de outros viajantes importantes durante a decisão de reserva, segundo o levantamento divulgado pela Civitatis.
O cenário indica menos uma substituição dos canais existentes e mais uma reorganização da jornada do viajante.
A inteligência artificial passa a ocupar principalmente a fase de descoberta e planejamento, enquanto reputação, avaliações, plataformas de reserva e profissionais continuam presentes durante a validação das escolhas e a contratação dos serviços.
Cruzeiros movimentaram R$ 4,76 bilhões na economia brasileira
O mercado brasileiro de cruzeiros também apresentou números expressivos nesta semana.
Um estudo produzido pela Fundação Getulio Vargas em parceria com a Clia Brasil aponta que a temporada 2025/2026 movimentou R$ 4,76 bilhões na economia nacional.
As operações de cabotagem, realizadas entre portos brasileiros, responderam por R$ 4,28 bilhões desse total e estiveram associadas a aproximadamente 64,5 mil postos de trabalho.
Durante a temporada, 602.864 passageiros embarcaram em cruzeiros de cabotagem no país.
Um dos dados mais relevantes está fora dos próprios navios. Aproximadamente R$ 2 bilhões foram movimentados pelos gastos de passageiros e tripulantes nas cidades de embarque, desembarque e escala, segundo dados apresentados pelo Ministério de Portos e Aeroportos.
O número ajuda a dimensionar os efeitos dos cruzeiros sobre outras áreas do turismo. O impacto econômico não termina na compra da cabine e se espalha por hospedagem, alimentação, transporte, comércio, atrações e serviços turísticos nas cidades visitadas.
Considerando também embarcações internacionais em trânsito pelo país, a atividade esteve associada a aproximadamente 72 mil postos de trabalho durante a temporada.
MSC amplia produtos para a temporada 2026/2027
O mercado de cruzeiros também esteve movimentado no lado comercial.
A MSC apresentou uma nova estrutura tarifária para a temporada 2026/2027, ampliando as combinações disponíveis entre preço, benefícios e condições de flexibilidade.
A operação sul-americana contará com cinco navios e oito portos de embarque: Santos, Rio de Janeiro, Itajaí, Paranaguá, Balneário Camboriú, Salvador, Maceió e Buenos Aires.
A programação inclui desde minicruzeiros de três a cinco dias até roteiros de sete noites ou mais, de acordo com informações publicadas pela PANROTAS.
A diversificação das durações mostra uma tentativa de atingir diferentes perfis de consumidores. Cruzeiros mais curtos funcionam como uma porta de entrada para passageiros que ainda não conhecem esse tipo de viagem, enquanto itinerários mais longos mantêm a oferta tradicional do segmento.
Outra movimentação anunciada pela companhia está relacionada ao mercado de grupos. A MSC trabalha com grupos de 16 a 300 hóspedes e oferece também estruturas destinadas a reuniões, eventos, viagens de incentivo e convenções.
Para o período de Réveillon, quatro navios terão roteiros especiais na temporada 2026/2027, com opções de sete ou nove noites e embarques em diferentes portos brasileiros, conforme publicado pelo Brasilturis.
As movimentações reforçam uma estratégia de ampliar a utilização dos cruzeiros para além das tradicionais férias de verão, aproximando o produto de eventos, grupos e viagens temáticas.
ABAV Expo se aproxima com tecnologia e inteligência artificial em destaque
Outra movimentação importante do mercado acontece já na próxima semana.
A 53ª ABAV Expo será realizada entre 30 de setembro e 2 de outubro, no Expo Center Norte, em São Paulo.
A expectativa da organização é receber mais de 40 mil participantes e reunir mais de 2 mil marcas relacionadas a segmentos como aviação, hospedagem, operadoras, cruzeiros, seguros, transporte, tecnologia e destinos.
Os agentes de viagens devem representar cerca de 45% do público.
Além das negociações entre empresas, a programação ajuda a mostrar quais assuntos estão ganhando espaço dentro da indústria.
A ABAV Talks terá mais de 50 atividades distribuídas em quatro arenas, abordando inteligência artificial, inovação, ESG, turismo regenerativo, tecnologia e desenvolvimento de destinos.
Entre os temas previstos estão aplicações de IA generativa na criação de roteiros, atendimento e produção de conteúdo para profissionais do turismo.
A presença do assunto na principal feira brasileira de agenciamento acontece justamente em uma semana na qual novas pesquisas mostram uma adoção acelerada da inteligência artificial pelos próprios viajantes.
A tecnologia deixa, portanto, de aparecer apenas como uma tendência distante e passa a ocupar simultaneamente os dois lados do mercado: quem compra e quem comercializa viagens.
Turismo de natureza ganha novos roteiros e produtos
O turismo de natureza também apareceu entre as movimentações da semana.
No Pará, a Trilha Amazônia Atlântica conecta Belém à Serra do Piriá, em Viseu, em um percurso de aproximadamente 468 quilômetros que atravessa 17 municípios.
O trajeto combina florestas, manguezais, igarapés e comunidades tradicionais, criando um produto turístico que integra natureza e cultura local.
Já no Rio de Janeiro, os Caminhos de Trajano de Moraes formam uma rota de aproximadamente 37 quilômetros na Região Serrana.
O percurso combina cachoeiras, antigas fazendas, elementos históricos, Mata Atlântica, cicloturismo, trekking e atividades de aventura.
Os dois projetos foram destacados recentemente pelo Ministério do Turismo e refletem uma expansão dos produtos turísticos estruturados a partir de experiências específicas, em vez de depender exclusivamente de destinos já consolidados.
Esse movimento acompanha justamente os dados de comportamento apresentados pelas pesquisas recentes.
Se experiências passam a exercer maior influência na escolha das viagens, rotas gastronômicas, históricas, naturais, religiosas e culturais ganham potencial para transformar regiões menos conhecidas em destinos por mérito próprio.
Orlando reforça a importância do mercado brasileiro
No turismo internacional, Orlando voltou a demonstrar interesse especial pelo mercado brasileiro.
Durante uma missão comercial da Visit Orlando no Brasil, representantes norte-americanos apresentaram uma projeção de 2,4 milhões de visitantes brasileiros nos Estados Unidos até 2030.
Mais de 1,9 milhão de brasileiros viajaram para os Estados Unidos em 2025 e, segundo os dados apresentados durante os encontros, cerca de seis milhões possuem visto norte-americano válido.
Outro indicador chama atenção: 83% dos brasileiros que viajam para os Estados Unidos seriam visitantes recorrentes, segundo informações divulgadas pelo Brasilturis.
Essa recorrência é particularmente importante para destinos extremamente conhecidos.
Orlando construiu sua imagem internacional principalmente ao redor de parques temáticos, mas a estratégia promocional mais recente procura destacar também gastronomia, hospedagem, entretenimento, compras e outras experiências disponíveis na região.
A Visit Orlando realizou encontros com operadores e capacitações em cidades como São Paulo, Campinas e Rio de Janeiro.
A estratégia mostra que destinos consolidados continuam investindo para renovar sua proposta. Quando uma parcela significativa dos visitantes já conhece as atrações mais famosas, ampliar a permanência e estimular novas viagens passa a depender da apresentação de experiências diferentes.
Ministério do Turismo e BID estudam novas alternativas de financiamento
Outra movimentação da semana ocorreu na área financeira.
O Ministério do Turismo e o Banco Interamericano de Desenvolvimento abriram um processo para contratar uma consultoria que analisará a oferta e a demanda de crédito no turismo brasileiro.
O objetivo é identificar dificuldades de acesso a financiamento, analisar os instrumentos existentes e propor alternativas que possam tornar o crédito destinado ao setor mais competitivo e sustentável.
O trabalho deverá durar aproximadamente seis meses, conforme o processo anunciado pelo Ministério do Turismo.
Ainda não se trata, portanto, do lançamento de uma nova linha de financiamento. O projeto está em uma fase anterior, de diagnóstico e desenvolvimento de propostas.
Mesmo assim, o estudo ocorre em um setor particularmente sensível ao acesso a capital.
Turismo possui forte sazonalidade, exige investimentos antecipados e reúne empresas de portes bastante diferentes. Hotéis, transportadoras, operadores, agências e outros prestadores também possuem necessidades financeiras distintas.
Uma eventual reorganização dos mecanismos de financiamento pode ter impacto relevante principalmente se conseguir ampliar o acesso das empresas de menor porte a crédito com condições compatíveis com a dinâmica do setor.
Uma semana que mostra um turismo maior e mais diversificado
As notícias desta semana apontam para um mercado que continua crescendo, mas cuja expansão acontece de maneiras diferentes.
A aviação transporta mais passageiros. O turismo internacional avança em ritmo superior ao doméstico. Cruzeiros movimentam bilhões fora dos navios. Experiências passam a influenciar a própria escolha dos destinos e ferramentas de inteligência artificial entram definitivamente no processo de planejamento.
Ao mesmo tempo, destinos tradicionais continuam disputando a atenção do viajante, enquanto novas rotas de natureza, cultura e aventura tentam criar demanda ao redor de experiências específicas.
É justamente a combinação desses movimentos que chama atenção.
O crescimento do turismo já não pode ser observado apenas pelo número de passageiros transportados ou pela quantidade de hospedagens vendidas. Uma parcela crescente do valor econômico da viagem está distribuída entre atrações, passeios, gastronomia, eventos, experiências e serviços que acontecem ao redor do deslocamento.
A tecnologia adiciona outra camada a essa transformação.
O viajante passou a ter uma capacidade muito maior de descobrir destinos e montar possibilidades sozinho. Ao mesmo tempo, o volume de opções disponíveis nunca foi tão grande.
O turismo de 2026 parece caminhar justamente nesse encontro entre mais viagens, mais experiências e mais tecnologia.
E os números divulgados nesta semana mostram que essa transformação já está acontecendo.